domingo, 20 de setembro de 2015

ESPECIAL

-Você é real?
-Sou sim.
-E por que os outros não te veem?
-Eu só faço parte de sua realidade.
-Mas os outros te conhecem.
-Sim, mas não faço parte da realidade deles.
-... Eu não entendo...
-Como não entende?
-Por que você está na minha realidade e não na dos outros?
-Porque você precisa ser especial.
-Fazer parte do mundo deles me impediria de ser especial?
-Já parou para pensar na razão de você ser especial?
-Eu acho que não.
-Você é especial porque consegue fazer algo que ninguém mais consegue. Ser especial é ter algo a mais, ter razões e ocasiões que os outros não podem ter. Ser especial é ser capaz de vivenciar mais do que os outros sequer podem pensar.
-Ah, então é por isso que dizem que sou especial?
-Esse é outro tipo de especial.
-Como assim?
-Esse especial é diferente. É inútil, não precisa entender.
-Ah... E você? É especial?
-Só se você quiser que eu seja.
-Então você só pode falar comigo?
-Só se quiser que eu fale.
-Então eu posso decidir se você é ou não especial?
-Se você for especial, também terei de ser. Sou parte de você.
-... Não acha que ser especial é um pouco solitário?
-Talvez um pouco.
-Ser o único capaz de fazer alguma coisa. Se for para fazer algo, que seja para dividir com alguém, e não para guardar para si mesmo! Isso é errado.
-É verdade. Mas então, o que você vai querer que eu seja?
-Como é estar morta?
-É como viver, mas sem poder dizer para os outros.
-Todo mundo sente alguma coisa, não é?
-Claro. Inclusive você.
-Eu não queria que você fosse especial. Sua vida seria muito chata só comigo. Mas se eu não estivesse viva, poderíamos ser ambos especiais e nunca seriamos solitárias. Aliás eu poderia ser como você. Aí seriamos especiais juntas, não é?
-Então é isso, pequenina? Você quer morrer?
-Quero sim.
-Tem certeza? É um caminho sem volta.


-Tudo bem, dona morte. Como a senhora mesmo diz, a morte é só o começo.

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