-Você
é real?
-Sou
sim.
-E
por que os outros não te veem?
-Eu
só faço parte de sua realidade.
-Mas
os outros te conhecem.
-Sim,
mas não faço parte da realidade deles.
-...
Eu não entendo...
-Como
não entende?
-Por que você está na minha realidade e não na dos outros?
-Porque
você precisa ser especial.
-Fazer
parte do mundo deles me impediria de ser especial?
-Já
parou para pensar na razão de você ser especial?
-Eu
acho que não.
-Você é especial porque consegue fazer algo que ninguém mais consegue. Ser especial é
ter algo a mais, ter razões e ocasiões que os outros não podem ter. Ser
especial é ser capaz de vivenciar mais do que os outros sequer podem pensar.
-Ah,
então é por isso que dizem que sou especial?
-Esse
é outro tipo de especial.
-Como
assim?
-Esse
especial é diferente. É inútil, não precisa entender.
-Ah...
E você? É especial?
-Só
se você quiser que eu seja.
-Então
você só pode falar comigo?
-Só
se quiser que eu fale.
-Então
eu posso decidir se você é ou não especial?
-Se você for especial, também terei de ser. Sou parte de você.
-...
Não acha que ser especial é um pouco solitário?
-Talvez
um pouco.
-Ser
o único capaz de fazer alguma coisa. Se for para fazer algo, que seja para
dividir com alguém, e não para guardar para si mesmo! Isso é errado.
-É
verdade. Mas então, o que você vai querer que eu seja?
-Como é estar morta?
-É
como viver, mas sem poder dizer para os outros.
-Todo
mundo sente alguma coisa, não é?
-Claro.
Inclusive você.
-Eu
não queria que você fosse especial. Sua vida seria muito chata só comigo. Mas
se eu não estivesse viva, poderíamos ser ambos especiais e nunca seriamos solitárias.
Aliás eu poderia ser como você. Aí seriamos especiais juntas, não é?
-Então
é isso, pequenina? Você quer morrer?
-Quero
sim.
-Tem
certeza? É um caminho sem volta.
-Tudo
bem, dona morte. Como a senhora mesmo diz, a morte é só o começo.

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