quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MORTO

Saindo do hospital, os dois homens viram o sofrido rapaz, estirado sobre o chão, perto da fila.
-O que aconteceu com ele?
-Não sei, acho que está morto.
-Parece que a fila não andou rápido o suficiente. Pobre homem...
-Mas por que todo mundo está ignorando ele? Ninguém vai ajudá-lo?
-Podemos chamar alguém para tirar o corpo dele daí.
-Acho que se ninguém tirou é porque é contagioso.
-Será que passa pela pele?
-Sei lá. É melhor a gente fingir que não viu.
Do outro lado da sala, duas mulheres comentavam sobre o mesmo rapaz, atirado sobre o chão, com os olhos fechados e com a boca aberta.
-Aqueles dois viram o moço no chão.
-Por que não ajudaram ele?
-Acho que eles trabalham aqui...
-Será que o rapaz não pode ser tirado dali?
-Ao que parece sim. As pessoas estão contornando a filha, olha só!
-Eita, Maria. É mesmo.
-A gente até que podia ajudar...
-Acho melhor não. Se ninguém ajudou agora, tem caroço nesse angu!
-Vixi... As pessoas estão olhando para a gente. Esse povo sabe que a gente está comentando sobre o rapaz.
-Vamos fingir que ninguém viu nada e vamos embora.
-Não, espera. Opa, ali. Pronto. Doutor, espere!
A moça chamou o Dr.Ricardo. Por que ninguém estava ajudando aquele pobre rapaz? Por que ninguém o tirava dali? Afinal, hospital não é lugar de defunto. Ah, mas calma aí, meu senhorio! Com meus botões, eu nunca pensaria nisso! O rapaz não estava morto não. Ele estava mesmo é dormindo. Pegou no sono na fila do SUS.

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